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Dessa vez, estávamos lá.
E na hora de tudo acontecer, depois de muito papo e conversa jogada fora...
Finalmente nus, frente a frente.

Sem filtros, sem pudores.
A palavra prevaleceu.

Bebericávamos vinho, amparados um no outro, e a ideia venceu a ação.
O auge da complexidade dos 28 anos enviesado à descomplicação do pós-40.

Seu corpo, alvo e nu, contava uma história.
Cada linha, cada marca, uma caminhada interessantíssima a ser percorrida.

Os pés pequenos, desafiando a extensão do caminho.
O joelho cicatrizado, resquício de uma deficiência que ali, naquele instante, era nula, irrelevante.
As muletas, ausentes.

Taças esvaziavam-se entre sorrisos.
Aprendi sobre binarismo e pansexualidade com uma doçura que tornava tudo tão natural.
As passagens de vida desfilavam entre goles de vinho e olhares atentos.

A maternidade lhe dera uma serenidade de quem já chegou ao limite e sobreviveu.

O piercing cintilava na meia-luz, intimidante e sedutor, refletindo seu rosto de feições orientais e gestos cuidadosos.
Entre carícias, perguntei pelas tatuagens.
E então vieram mais histórias.

Quatro naipes, cada um com um elemento de proteção.
Três estrelas, sorte e lembrança dos que importam.
Uma frase que terminava com a palavra "amor" em outra língua, testemunho dos sacrifícios feitos em nome dele.

A conversa se tornava tão ou mais prazerosa que qualquer toque.
Ali, lado a lado, trocando calores em uma noite fria.
As histórias nos consumiam, uma após a outra, nos enredando como um lençol invisível.

E então foi minha vez.
Falei de mim, das minhas desilusões.
Ela ouvia com fome de palavras.

Mais vinho.
Ela gostava dos meus pelos, da minha forma corporal.
"Adônis" era um título desnecessário. A barriga, segundo ela, ajudava a descontrair.

Mais vinho.
Sem os óculos, minha miopia desenhava a alma dela na minha mente.
E a miopia dela me pintava como eu verdadeiramente era, ali, naquele instante singelo.

No fim, o vinho venceu as ideias.
A dormência chegou como um último recurso, como se o corpo se rendesse ao desejo de ficar ali até o amanhecer.

Nos abraçamos.
E num beijo afetuoso, fomos capturados pelo sono.

No dia seguinte, enquanto tomava seu café amargo, ela confessou que sonhou comigo.
E então, ficou selado:
Aquela noite foi consumada.

Onde a vida superou o ato. 

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